Embora ninguém saiba se a droga causa a asma por si só, um outro relatório – publicado junto com o primeiro – mostra pela primeira vez que muitas crianças tomavam paracetamol antes de desenvolverem sintomas como dificuldade em respirar.
“Nós confirmámos que o uso do remédio veio em primeiro lugar, portanto uma relação de causalidade é cada vez mais provável”, disse Alemayehu Amberbir, da Universidade de Adis Abeba, na Etiópia, e da Universidade de Nottingham, no Reino Unido.
Antes que alguém limpe o seu armário de remédios, devem ser feitos testes clínicos em larga escala, ressaltou Amberbir, cujas descobertas foram publicadas no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine.
A equipa do pesquisador acompanhou mais de 1.000 bebés da Etiópia ao longo de três anos. Quando as crianças completaram um ano, os pesquisadores perguntaram às mães se os seus bebés tinham problemas respiratórios e quanto paracetamol tinham tomado.
Cerca de 8% das crianças começaram a ofegar com idades entre um e três anos. Aquelas que tinham tomado paracetamol no primeiro ano – antes da dificuldade em respirar – tinham até sete vezes mais probabilidade de desenvolver asma.
O aumento manteve-se mesmo após o ajuste para febre e tosse, que em princípio poderiam ter provocado tanto a dificuldade em respirar quanto o uso de analgésicos. “O que temos são informações e uma forte associação entre o uso de paracetamol e asma”, disse Dipak Kanabar, que escreveu orientações sobre analgésicos, mas não esteve envolvido no novo estudo.
Mas Kanabar, pediatra consultor do Hospital Infantil Evelina, em Londres, advertiu que o que os pais recordam nem sempre tem a precisão necessária, o que poderia ter influenciado os resultados.
“Nós temos que ser cuidadosos quando damos conselhos aos pais e salientar que estes estudos não significam que o consumo do paracetamol resultará necessariamente no desenvolvimento da asma”, disse Kanabar.
Mas se a relação se tornar real, pode haver um impacto importante na saúde pública, de acordo com outro relatório do American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. Nesse estudo, baseado em mais de 320.000 adolescentes de 50 países, 11% das crianças tinham dificuldade em respirar – apenas um pouco mais do que a percentagem de crianças americanas que têm asma.
Aqueles adolescentes que tomaram paracetamol pelo menos uma vez por mês – um terço dos analisados mundialmente, e mais de 40% de americanos – duplicaram a probabilidade de contrair asma. Além disso, também eram mais propensos a ter congestão nasal alérgica e eczema, relatou a equipa de Richard W. Beasley, do Instituto de Pesquisa Médica da Nova Zelândia.
Os investigadores estimam que o paracetamol poderá ser responsável por até 40% de todos os sintomas da asma, inclusive graves, como acordar ofegando uma vez por semana ou mais.
O laboratório McNeil Consumer Healthcare, que vende o Tylenol, disse numa nota que o seu produto “tem mais de 50 anos de história clínica para provar a sua segurança e eficácia”, e que “o perfil de segurança bem documentado faz do analgésico o preferido para quem sofre de asma”.
A empresa disse que há ensaios clínicos padrão que mostram que não existe relação de causalidade entre o paracetamol e a asma. No entanto, Kanabar encontrou na sua revisão da literatura médica que o ibuprofeno – outro analgésico às vezes vendidos como Advil – pareceu provocar menos dificuldades de respiração do que o paracetamol. Contudo, o ibuprofeno não é recomendado a pessoas com asma, disse Kanabar, e a maioria dos médicos receita Tylenol.
A aspirina, outro analgésico comum, é geralmente desaconselhada a crianças, pois pode causar problemas respiratórios a curto prazo e outros efeitos colaterais raros.
De acordo com Kanabar, deixar de dar analgésicos às crianças é provavelmente uma má ideia e elas podem sentir-se pior e beber menos líquidos, o que poderia retardar a recuperação.
Na hora de escolher entre o tylenol e o ibuprofeno para combater a febre ou dor de cabeça do filho, Kanabar disse que “pode ser qualquer um”.
Fonte: Folha – 13/08/2010








Se houver alguma verdade nesses comentários, fica a indagação: o laboratório não teria esgotado toda as formas de testes antes de lançá-lo no mercado para o consumo da população?