Parto: em casa ou na maternidade?

Trocar a maternidade pelo recato de casa é uma opção de cada vez mais grávidas. Nos Estados Unidos, 0,1% das mulheres tem o bebé no domicílio. Na Europa, a Holanda vai à frente com uma taxa de partos domiciliários superior a 30%.

Em Portugal, o fenómeno é tímido mas em 2009 mais de 500 bebés (no total de 100 mil) nasceram fora do meio hospitalar. Só não se sabe quantos desses partos estavam planeados para ocorrer em casa ou quantas grávidas não chegaram a tempo ao hospital.

PartoNatural.jpg Um estudo realizado pelo Maine Medical Center e publicado na revista “American Journal UHF Obstetrics and Ginecology” reacendeu a polémica em torno da segurança da mãe e do bebé. Os autores compararam 350 mil partos domiciliários com 200 mil nascimentos hospitalares ocorridos nos EUA e na Europa e concluíram que a mortalidade neonatal (principalmente por complicações respiratórias e falhas na reanimação) sobe para o dobro nos partos em casa, mas ressalvam que o risco é baixo: dois em cada mil recém-nascidos não sobrevivem. Nos hospitais há menos de uma morte por mil nascimentos.

O estudo não surpreendeu Luís Graça, responsável pela obstetrícia do Hospital de Santa Maria, que se assume contra a falta de segurança de um parto em ambiente familiar com reduzida intervenção médica, mesmo quando é uma gravidez de baixo risco. “No decorrer do trabalho de parto podem surgir complicações. Sabe-se que 20% das gravidezes de baixo risco evolui para uma de médio ou alto risco. Se a parturiente está em casa, chegará a tempo de ser assistida no hospital?”, questiona o actual presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-fetal.

“É um trabalho no fio da navalha”, diz Fernanda Matos, responsável pelo serviço de urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Amadora-Sintra. E se as grávidas chegam ali cada vez mais informadas, algumas querem música clássica para relaxar ou um parto à meia-luz, há uma margem de segurança que nenhum médico ultrapassa.

“O parto domiciliário é uma consequência do clima de desconfiança que se faz sentir nos hospitais. Os utentes já não nos veem como benfeitores e procuram alternativas, mas menosprezam os riscos”, diz a médica, ao mesmo tempo que realça o trabalho que foi desenvolvido nas últimas décadas no sentido de melhorar os indicadores de mortalidade infantil e neonatal do país.

A mensagem é sublinhada pelo diretor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina do Porto. João Bernardes admite, porém, que há margem para melhorar, principalmente na diminuição do número de cesarianas e partos vaginais instrumentalizados. “Ocupamos um dos últimos lugares da Europa”.

Luísa Condeço, cofundadora da Associação Doulas de Portugal, acompanhou dezenas de partos em casa e nunca teve uma emergência. Diz até que algumas intervenções hospitalares, como o recurso à ocitocina artificial ou a monitorização fetal, contribuem para o aumento das complicações maternas. À mesma conclusão chegaram os autores do estudo: as mulheres cujos partos ocorreram em casa apresentaram menos lacerações, hemorragias e infecções.


Fonte: Expresso – 08/09/2010

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