Com base em referências dos registos de base populacional, são estimados mais de 9000 casos novos de cancro infanto-juvenil, no Brasil, por ano. Assim como em países desenvolvidos, no Brasil, o cancro já representa a segunda causa de mortalidade proporcional entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos, para todas as regiões.
Como a primeira causa são aquelas relacionadas com os acidentes e com a violência, podemos dizer que o cancro é a primeira causa de mortes por doença, após 1 ano de idade, até ao final da adolescência. Dessa forma, revestem-se de importância fundamental para o controlo dessa situação e o alcance de melhores resultados, as acções específicas do sector da saúde, como organização da rede de atenção e desenvolvimento das estratégias de diagnóstico e tratamento oportunos.
Cancro infantil corresponde a um grupo de várias doenças que têm em comum a proliferação descontrolada de células anormais e que pode ocorrer em qualquer local do organismo. As neoplasias mais frequentes na infância são as leucemias (glóbulos brancos), tumores do sistema nervoso central e linfomas (sistema linfático). Também acometem crianças o neuroblastoma (tumor de células do sistema nervoso periférico, frequentemente de localização abdominal), tumor de Wilms (tumor renal), retinoblastoma (tumor da retina do olho), tumor germinativo (tumor das células que vão dar origem às gónadas), osteossarcoma (tumor ósseo), sarcomas (tumores de partes moles).
Diferentemente do cancro do adulto, o cancro da criança geralmente afecta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação, enquanto que o do adulto afecta as células do epitélio, que recobre os diferentes órgãos (cancro da mama, cancro do pulmão).
Doenças malignas da infância, por serem predominantemente de natureza embrionária, são constituídas por células indiferenciadas, o que determina, em geral, uma melhor resposta aos métodos terapêuticos actuais.
No adulto, em muitas situações, o surgimento do cancro está associado claramente aos factores ambientais como, por exemplo, fumo e cancro do pulmão. Nos tumores da infância e adolescência, até ao momento, não existem evidências científicas que nos permitam observar claramente essa associação. Logo, prevenção é um desafio para o futuro. A ênfase actual deve ser dada ao diagnóstico precoce e orientação terapêutica de qualidade.
Em nosso meio, muitos pacientes ainda são encaminhados para o centro de tratamento com doenças em estágio avançado, o que se deve a vários factores: falta de informação dos pais, medo do diagnóstico de cancro (podendo levar à negação dos sintomas), falta de informação dos médicos. Também contribuem para esses atrasos no diagnóstico, os problemas de organização da rede de serviços e o acesso desigual às tecnologias de diagnóstico. Mas, algumas vezes, também está relacionado com as características de determinado tipo de tumor, porque a apresentação clínica dos mesmos pode não diferir muito de diferentes doenças, muitas delas bastante comuns na infância. Os sinais e os sintomas não são necessariamente específicos e, não raras vezes, a criança ou o jovem pode ter o seu estado geral de saúde ainda em razoáveis condições, no início da doença. Por esse motivo, é de importância crucial o conhecimento médico sobre a possibilidade da doença.
É muito importante estar atento a algumas formas de apresentação dos tumores da infância
• Nas leucemias, pela invasão da medula óssea por células anormais, a criança torna-se susceptível a infecções, pode ficar pálida, ter sangramentos e sentir dores ósseas.
• No retinoblastoma, um sinal importante de manifestação é o chamado “reflexo do olho do gato”, que é o embranquecimento da pupila quando exposta à luz. Pode apresentar-se, também, através de fotofobia ou estrabismo. Geralmente acomete crianças antes dos 3 anos de idade. Hoje a pesquisa desse reflexo poderá ser feita desde a fase de recém-nascido.
• Algumas vezes, os pais notam um aumento do volume ou uma massa no abdomen, podendo tratar-se nesse caso, também, de um tumor de Wilms ou neuroblastoma.
• Tumores sólidos podem manifestar-se pela formação de massa, podendo ser visíveis ou não e causar dor nos membros, sintoma, por exemplo, frequente no osteossarcoma (tumor no osso em crescimento), mais comum em adolescentes.
• Tumor do sistema nervoso central tem como sintomas dor de cabeça, vómitos, alterações motoras, alterações de comportamento e paralisia de nervos.
É importante que os pais estejam alerta para o facto de que a criança não inventa sintomas e que ao sinal de alguma anormalidade, levem os seus filhos ao pediatra para avaliação. É igualmente relevante saber que, na maioria das vezes, esses sintomas estão relacionados com doenças comuns na infância. Mas isso não deve ser motivo para que a visita ao médico seja descartada.
O tratamento do cancro começa com o diagnóstico correcto, em que há necessidade da participação de um laboratório confiável e do estudo de imagens. Pela sua complexidade, o tratamento deve ser efectuado em centro especializado, e compreende 3 modalidades principais: quimioterapia, cirurgia e radioterapia, sendo aplicado de forma racional e individualizada para cada tumor específico e de acordo com a extensão da doença. O trabalho coordenado de vários especialistas também é factor determinante para o êxito do tratamento (oncologistas pediatras, cirurgiões pediatras, radioterapeutas, patologistas, radiologistas), assim como o de outros membros da equipa médica (enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, farmacêuticos).
Tão importante quanto o tratamento do cancro em si, é a atenção dada aos aspectos sociais da doença, uma vez que a criança e o adolescente doentes devem receber atenção integral, inseridos no seu contexto familiar. A cura não deve basear-se somente na recuperação biológica, mas também no bem-estar e na qualidade de vida do paciente. Neste sentido, não deve faltar ao paciente e à sua família, desde o início do tratamento, o suporte psicossocial necessário, o que envolve o comprometimento de uma equipa multiprofissional e a relação com diferentes sectores da sociedade, envolvidos no apoio às famílias e à saúde de crianças e jovens.
Fonte: INCA







