O sexo é trabalho da genética, o género constrói-se

Assim que veio ao mundo, Shiloh foi recebida por flashes. Estampou capas de revista, o seu semblante foi comparado com os dos pais e desfilou, ao lado da mãe, modelitos de vestidos e sapatinhos de boneca.

A menina, filha dos actores Angelina Jolie e Brad Pitt, transformou-se agora no centro de um polémico debate: com quatro anos, quer ser um menino.

Shiloh.jpg O desejo de usar jeans masculinas, blusões e bermudas — justificado pela famosa mãe como um gosto próprio da pequena, que, segundo ela, “pensa que é como os irmãos” — foi acatado. Hoje, Shiloh é confundida com o irmão mais novo quando está na rua, porque tem o cabelo cortado e veste-se como um rapaz.

“Alimentar essa vontade da criança, pode revelar perturbação da identidade sexual dos próprios pais. O transtorno de género pode afectar diversas áreas da vida da menina e trazer problemas futuros, como quadros de depressão e dificuldade de interacção social”, explica o psicanalista gaúcho Roberto Barberena Graña, especializado em crianças e adolescentes.

As possíveis consequências na vida de uma criança que vive um género oposto ao seu (masculino ou feminino) são explicadas por questões sociais. Desde que nascem, ou quando ainda na barriga da mãe, os bebés são inseridos numa categoria definida: menino ou menina. É quando todos o classificam de acordo com a biologia e passam a comprar roupas com cor relacionada com o sexo e brinquedos diferenciados. A criança fica acostumada com esses conceitos e é tratada de acordo com o género que tem. Mas, quando decide ser diferente e assumir outro género, ocorre uma série de mudanças à sua volta.

“A distinção entre homem e mulher é básica para a compreensão de nós mesmos enquanto seres humanos. Ela regula o modo como os indivíduos são tratados, os papéis que desempenham na sociedade e as expectativas sobre o modo de se comportar e sentir”, afirma a professora de Educação da Universidade de Londres Carrie Paechter, autora do livro Meninos e Meninas(Artmed, 192 páginas).

Ela explica que, nos anos iniciais, a família é a base para o desenvolvimento da compreensão infantil do que fazem homens e mulheres, meninos e meninas, e de como essas actividades podem variar de acordo com o sexo de cada um. Crianças menores demonstram tendência para generalizações e tiram conclusões sobre o masculino e o feminino a partir daquilo que vêem — é possível que Shiloh, por exemplo, veja com encanto o mundo que cerca os irmãos.

No entanto, os pais não precisam de se preocupar se o filho gosta de brincar com bonecas ou se a menina prefere divertir-se com carrinhos ou espadas. A preferência só se torna preocupante se for corriqueira, obsessiva, diz Graña.

“Os pais participam mais ou menos activamente na produção do transtorno. O comportamento compulsivo deve ser bem observado, e o incentivo leva à construção de um problema maior, ligado ao lado social e ao desenvolvimento da criança. Se os padrões puderem ser analisados precocemente, é possível corrigi-los”, afirma Graña.

Mudando de lado

O sexo é trabalho da genética, o género constrói-se. Para que os dois andem em harmonia na vida de uma criança, é preciso ter identidade de homem ou de mulher e perceber os símbolos e significados do que é masculino e feminino. Só que, quando sexo e género se contrapõem na criança, surge uma série de desafios, principalmente na vida dos pais.

Para o psicanalista Roberto Barberena Graña, autor do livro Transtornos da Identidade de Género na Infância (Editora Casa do Psicólogo, 282 páginas), o caso de Shiloh, por exemplo, pode estar ocorrendo devido a uma distorção na matriz familiar do género. Ou seja, uma lacuna na identidade sexual do pai ou da mãe (ou dos dois), ou nas gerações passadas da família, pode contribuir para o desejo da menina de ser e vestir-se como um rapaz.

“Ela vive, com certeza, um momento pré-transexual, o que poderá evoluir para o transexualismo adulto”, explica o especialista.

É importante dar liberdade à criança para escolher as suas roupas e brinquedos. Entretanto, segundo Graña, quando há compulsão por algo do sexo oposto, há transtorno, que pode afectar áreas do desenvolvimento e trazer dificuldade de interação social, estado de retraimento, quadros de depressão, tentativa de suicídio infantil (ligada principalmente a acidentes domésticos), psicose, problemas na sala de aula, agitação e hiperactividade.

Para evitar os reflexos, ele sugere que se procure um profissional para fazer uma avaliação mais precisa. Quanto mais cedo, melhor.

“Aos dois ou três anos, os pais já podem observar algum transtorno e procurar ajuda. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor a evolução clínica. O ideal é não esperar até à puberdade”, avalia o especialista.

Os sinais mais comuns são o desejo compulsivo e repetitivo por actividades, brinquedos e roupas do sexo oposto. Meninos que desejam sempre vestir as roupas da mãe ou das irmãs, que se encantam por maquilhagens, meninas que não ligam a bonecas e brigam para não usar roupas de menina, precisam de ser observadas com mais atenção, diz o psicanalista.


Fonte: Donna DC – 16/08/2010

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