Ensine as suas crianças a serem responsáveis no uso do telemóvel

Jaime Freitas defende que quem dá um telemóvel a uma criança é responsável pelo uso que dele é feito. Nesse contexto, para o professor e dirigente sindical, «quem dá um telemóvel a uma criança deve impor regras para a sua utilização.

A questão foi suscitada por um recente estudo da Optimus, que concluiu que em Portugal 55% das crianças entre os sete e os dez anos já tem o seu próprio telemóvel.

Numa primeira abordagem e falando como pai, Jaime Freitas lembra que as tecnologias não são boas ou más. «O seu uso é que pode ser melhor ou pior», especifica.

Jaime Freitas diz que, «se uma criança usa um telemóvel para manter um contacto mais ou menos permanente com a sua família acho que é muito positivo, porque traz muita segurança, quer à criança, quer ao núcleo familiar».

Neste contexto, defende ser necessário tomar as devidas precauções para que os telemóveis não sejam usados ao contrário dos objectivos que se pretende. Isso, na sua opinião, obriga a que, quem dá um telemóvel a uma criança tenha a responsabilidade de supervisionar o uso que dele é feito. «Em que condições é que a criança está a fazê-lo, com quem é que está a entrar em contacto, que serviços é que está a pedir, etc.», exemplifica.

Jaime Freitas lembra que não é o professor que dá o telemóvel às crianças. Quem o dá é que deve supervisionar o seu uso e estabelecer regras para a sua utilização, salienta.

Escolas têm regras para uso do telemóvel

Apesar disso, o dirigente do Sindicato Democrático dos Professores diz que, pelo conhecimento que tem, as escolas têm regras de utilização dos telemóveis, umas mais apertadas, outras menos controladas.

A título de exemplo, Jaime Freitas diz que, durante a aula, há a obrigatoriedade de os alunos manterem os seus telemóveis desligados. «Não é uma regra que seja assim tão descabida ou difícil de entender», frisa o docente.

Jaime Freitas dá o exemplo das viagens aéreas. «Todos os cidadãos percebem que, quando fazem uma viagem de avião, antes de entrarem, desligam o telemóvel e só o voltam a ligar depois de saírem do avião.» Assim sendo, Jaime Freitas considera que «não é uma regra assim tão difícil de entender que, também os alunos, quando entram numa sala de aula, desliguem os telemóveis e só o voltem a ligar quando saem dessa aula».

Ensinar direitos com responsabilidade

Como professor, Jaime Freitas defende que «deve haver uma intervenção didáctica, pedagógica, a fim de consciencializar, informar, educar os alunos para o exercício dos seus direitos, com responsabilidade».

Conforme explica, o direito à informação e às tecnologias «é um direito das crianças e dos alunos». O que é preciso é que o uso dessas tecnologias seja feito com responsabilidade.

Jaime Freitas defende que os alunos devem ser alertados para os usos indevidos do telemóvel, «nomeadamente, para aqueles que até constituem crime». O docente dá o exemplo da gravação e publicação de imagens, de downloads ilegais e da divulgação de conteúdos não autorizados, práticas que muitos jovens têm, sem se aperceberem das respectivas implicações.

«Deve haver uma acção de informação e de formação dos alunos, para que eles possam entender que, como em tudo na nossa vida, na relação com as novas tecnologias há determinadas acções que podem ser feitas e outras não».

Jaime Freitas diz que as crianças entendem que se usarem uma faca para cortar um bife é uma coisa normal e adequada, mas se usarem uma navalha de ponta e mola já é crime.

Refira-se que, de acordo com o estudo da Optimus, as meninas são as melhores a convencer os pais a lhes comprar um telemóvel, são fãs de marcas, querem telefones a sério e não os que foram desenhados para crianças. Em Portugal, em 2009, segundo a Optimus, o mercado de telemóveis para criança subiu 30%.

Videovigilância nas escolas tem regras próprias

A videovigilância nas escolas tem regras, depende da autorização de uma entidade nacional e deve ser usada apenas para garantir a segurança dos alunos, pessoal (docente e não só) e da própria escola. O director de uma escola não pode filmar a aula de um professor. Por maioria de razões, não pode um aluno fazê-lo, recorrendo ao telemóvel.

O exemplo é dado por Jaime Freitas para demonstrar o risco que os estudantes correm ao infringirem as regras estabelecidas dentro de uma sala de aula, quanto ao uso do telemóvel.

Jaime Freitas lembra que os professores, tal como todas as pessoas, têm direito à sua imagem e aos conteúdos que produzem. Os casos mediatizados no passado ano lectivo, de incidentes dentro de salas de aula, foi feito à revelia desse direito.

Esta questão, conforme acrescenta, é um problema com o qual os professores de hoje se debatem. «Qualquer um deles arrisca-se a que isso lhe aconteça, pelo que esta matéria é uma preocupação profunda dos docentes», diz Jaime Freitas. Por tudo isto, o dirigente sindical defende que o uso indevido dos telemóveis dentro das salas de aula deve ser penalizado.

Conforme diz, esta é uma tecnologia que se for usada de forma adequada é normal e até deve ser estimulada; se for usada de forma errónea, pode constituir crime, pelo que deve ser penalizada.

Fonte: Jornal da Madeira – 31/08/2009

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