Entrar em contacto com o espaço da emoção transformada em som pode ser feito desde cedo, por meio da musicalização. Com o objectivo de possibilitar a aproximação dos pequenos com um ambiente sonoro, a técnica ajuda a despertar e a desenvolver o gosto pela música. Experimentando diferentes instrumentos ou por meio de jogos, brincadeiras e da observação, os pequenos têm a percepção auditiva aperfeiçoada, assim como um avanço na imaginação, coordenação motora, memorização, socialização, expressividade e percepção espacial.
– Além disso, as crianças socializam com as outras, podendo brincar e tocar instrumentos juntas. Até mesmo a timidez vai desaparecendo com os exercícios – explica Daniela Santos de Souza Bueno, professora da Talentho’s Escola de Música e especialista em Música Popular Brasileira.
No desenvolvimento da criança, a música actua na relação lógica, na construção da autonomia, da autoria e da construção da personalidade, afirma o professor de música Rodrigo Ferreira, do Colégio Aplicação e do Projecto Amora.
– Crianças que tiveram vivência musical têm diferenças básicas ao longo da vida. Percepção e forma de significação diferente. Codificação, capacidade de memorização, de expressão. A música é a melhor maneira de se desenvolver. É como um idioma, deve ser trabalhado diariamente. Gerando esse conhecimento e essa vivência, eles terão uma apropriação mais intensa da música erudita – explica Ferreira.
Estudantes que só ouviam rádio e músicas populares estão aderindo a ideias inteligentes que os estão inserindo no ambiente musical de qualidade. Projectos de escolas e da Orquestra Sinfónica de Porto Alegre (Ospa), por exemplo, são pensados como ferramentas nesta introdução dos pequenos na sensibilização. Nos Concertos Legais da Ospa, encontros didácticos são pensados para as crianças e professores, com narração e conversa com o maestro. O público mirim entra em contacto com composições eruditas como as de John Willians, Mozart e Villa-Lobos, e com o trabalho harmonioso da orquestra.
– Com o púbico infanto-juvenil vemos os olhinhos brilhando em atenção. É diferente de tocar para um público adulto, que é mais seleccionado – disse o maestro Paulo de Tarso após uma das apresentações do Concertos Legais.
O resultado da experiência são feições de surpresa, ouvidos atentos e mentes modificadas com a música erudita. De acordo com o maestro Paulo de Tarso, da Ospa, além de todos os benefícios da musicalização, estudos confirmam que as salas de aula que ouvem música produzem melhor porque as canções trabalham determinadas aéreas do cérebro que ajudam a ter uma fluência de pensamento maior. No caso da música sinfónica, as possibilidades de combinações ajudam a criança a ir além das produções oferecidas no dia a dia.
Até os recém-nascidos precisam de música
Os recém-nascidos são capazes de detectar o ritmo da música, que também é uma valiosa ferramenta para estimular o desenvolvimento cerebral desde os primeiros dias de vida.
– A música é o coração da vida. O amor fala através dela. Sem ela, não há bem possível. Com ela, tudo é formoso – explica o pianista e compositor austríaco Franz Liszt, criador do chamado “poema sinfónico”.
Além de todas essas virtudes, as melodias estão intimamente ligadas aos seres humanos durante toda a sua vida, inclusivamente desde antes de virmos ao mundo, e exercem uma especial influência durante a infância, de acordo com pesquisas recentes.
Segundo um estudo do Instituto de Lógica, Linguagem e Computação da Universidade de Amesterdão, na Holanda, os bebés têm, à nascença, a capacidade de reconhecer o ritmo musical, ou seja, a proporção entre o tempo de um movimento e o de outro diferente.
Segundo os pesquisadores, esta descoberta sugere que a “iniciação ao ritmo”, um sentido para detectar o ritmo regular, é inata ou possivelmente “aprendida” no útero materno. Os estudiosos consideram que, para entender como as pessoas podem aprender a conhecer a música, é preciso descobrir as capacidades perceptivas com as quais os bebés nascem.
A “iniciação ao ritmo”, a detecção de um pulso regular num sinal auditivo, é considerada uma capacidade humana fundamental, que pode ter um papel-chave na origem da música. Por enquanto, os teóricos continuam debatendo se esta característica é própria da natureza do ser ou se ela é aprendida depois.
Os pesquisadores afirmam também que os recém-nascidos desenvolvem uma atitude de expectativa perante o início de ciclos rítmicos, o compasso, inclusive, quando não é marcado pelo stress ou outros factores.
Descoberta ao ritmo do rock
Quando se omite o compasso, ocorre uma actividade associada com a contradição nas expectativas sensoriais. Por isso, os cientistas indicam que esses resultados apoiam a ideia de que a percepção do ritmo é inata.
– As pessoas podem sincronizar com facilidade a música devido às suas expectativas sobre como prosseguirá o ritmo ou o tempo – explicou Henkjan Honing, professor de cognição musical da Universidade de Amesterdão.
A equipa que dirigia colocou música de rock para que os bebés a escutassem, enquanto monitorizavam a sua actividade cerebral, e assim descobriram que os recém-nascidos eram capazes de detectar um ritmo descompassado. Além disso, a música de Mozart parece ter um poderoso efeito sobre as habilidades cerebrais, especialmente a Sonata para dois pianos em Ré Maior ou K448, a qual parece melhorar a concentração, aumentar a criatividade e capacidade intelectual, além de melhorar o raciocínio espaço-temporal, a percepção espacial e a expressão verbal.
Isso deve-se ao denominado Efeito Mozart: um aumento da energia cerebral, do rendimento intelectual e das habilidades para visualizar e imaginar formas espaciais.
No Hospital Universitário La Fe, em Valência, Espanha, um estudo provou os benefícios da música nas crianças prematuras e bebés com síndrome de abstinência. Especialistas comprovaram que as melodias de Mozart, Vivaldi e Brahms melhoram a frequência cardíaca e o nível de oxigénio do recém-nascido, o que produz um estado de relaxamento maior e um sono muito mais tranquilo. Os bebés escutavam música clássica três vezes ao dia durante uma hora.
Fonte: Vida Feminina – 20/07/2009
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