CRACK: O “craque” da equipa da morte

“O doce torna-se amargo na medida em que o efeito do crack passa e a necessidade psicológica assim o pede de volta”
(Archimedes Marques)

Entre todos os componentes da equipa das drogas, dos componentes da equipa da morte, está a figura do crack. O crack como o mais avassalador, como o mais devastador de todo o conjunto de entorpecentes ou dos elementos químicos alucinogénios, que torna o seu consumidor no maior dependente periculoso e debilitado existente. Torna o dependente capaz de qualquer coisa, capaz de matar ou morrer para sustentar o seu vício.

Crítica, é a situação em que se acha o consumidor e dependente do crack. Crítica, não melhor, é a situação em que vivem os seus entes queridos, que nada fizeram para merecer tal castigo.

A violenta crise situacional e emocional do dependente do crack parece afastá-lo de toda a perspectiva de dias melhores. As ocorrências no terreno familiar e social vão caminhando sempre em largas vertentes para o mal e para dias piores. A vida vivida pelos envolvidos com o vício do crack parece esvair-se entre os dedos das suas próprias mãos.

Lançando um olhar no passado, o viciado vê o rumo errado que tomou. Olhando para o futuro, somente se lhe afigura a tumba. O seu presente é só o crack… O crack como o senhor do seu viver… O crack como dominador do seu “eu”… O crack como o seu real transformador do bem para o mal… O crack como destruidor da sua família… O crack como aniquilador do seu bem maior… O crack como o seu transporte para a morte!…

Estamos, sem sombras de dúvidas, em aguda e profunda crise urbana e social relacionada com essa droga avassaladora.

De um lado, temos o traficante se fortalecendo cada vez mais e arregimentando sempre um maior número de pessoas para a sua equipa criminosa. O traficante como sendo o “dono do bairro”, o “rei do morro”, o “comandante da área”. O traficante como se fosse uma espécie de “Governo Ditatorial” paralelo ao nosso Regime Democrático do Direito.

Na sua “pseudo propriedade”, ele faz as vezes do Estado realizando, quase sempre em troca de favores, o trabalho social para a comunidade carente local. Funciona também como se fosse um “Juiz opressor” na resolução das contendas do povo. A sua palavra, a sua decisão, não se discutem, cumprem-se.

Como “Juiz”, ele também realiza o julgamento sumário do seu inimigo, do seu opositor, do não cumpridor das suas ordens, do traidor da sua equipa que quase sempre são condenados à pena de morte. Morte essa que pode ser por execução a tiros ou pelos meios cruéis da tortura. Os factos mostrados pelos media referentes aos constantes corpos encontrados em determinados locais evidenciam e demonstram a veracidade da afirmativa, principalmente no que tange aos morros do Rio de Janeiro, favelas de São Paulo, ou dos grandes centros do país.

Como Ditador, ele faz as suas leis, faz a guerra, a instabilidade social, causando terror e medo ao povo. Demonstra o seu poderio, a sua força, e até decreta feriado ao determinar o fechamento do comércio e dos colégios da “sua localidade” quando bem lhe convier.

Tais assertivas são facilmente comprovadas pelas matérias ofertadas nos media; vejamos alguns exemplos pelas manchetes ou chamadas jornalísticas da revista Veja nos últimos tempos:

TRAFICANTES USAM TERROR COMO ARMA DE GUERRA
Bandidos voltam a apavorar o Rio de Janeiro em mais uma demonstração de força e ousadia…

CIDADE SITIADA
Traficantes atacam pontos turísticos, desafiam a polícia e espalham terror no Rio…

OUSADIA SEM LIMITE
Terrorismo urbano em Vitória. Guerra entre quadrilhas no Rio. Onde isso vai parar?

O DIA DO BANDIDO
Em mais uma exibição de força, traficantes fecham o comércio em quarenta bairros do Rio de Janeiro…

GRANADA, METRALHADORA E AGORA MÍSSIL
Busca em Bangu 1 mostra a força do tráfico, que continua actuando por trás das grades

O tráfico de drogas, além disso tudo, também faz vítimas inocentes quase que diariamente através das constantes “balas perdidas” disparadas em treinamento, em acerto de contas, em confronto entre eles, em troca de tiros com a Polícia, por brincadeira ou simplesmente pela pura maldade de alguns quando atiram a esmo em qualquer direcção.

É realidade nua e crua que o tráfico de entorpecentes engrossa as suas fileiras com crianças e jovens que funcionam na organização criminosa como “aviões, fogueteiros, vigilantes, laranjas, informadores e até executores de crimes diversos”. Tais crianças e adolescentes, muitas vezes por falta de opção, ingressam naquele mundo e tem aquele “trabalho” como uma espécie de carreira profissional.

A série “Verdade” apresentada pela Rede Globo no programa Fantástico no ano de 2006 denominado “Falcão – meninos de tráfico” comprova essa triste realidade brasileira. O documentário que é uma produção independente realizada pelo rapper MV Bill, pelo seu empresário Celso Athayde e pelo centro de audiovisual da Central Única das Favelas, deu bastante trabalho aos seus idealizadores e realizadores que tiveram que enfrentar o ambiente hostil onde viviam os jovens.

O termo “falcão” é usado nas localidades do tráfico como sendo aquele cuja tarefa é vigiar a comunidade e informar quando a Polícia ou algum grupo inimigo se aproxima.

Durante as gravações, 16 dos 17 “falcões” entrevistados morreram, sendo 14 em apenas três meses, vítimas da violência na qual estavam inseridos. Os seus funerais também foram documentados. O único sobrevivente foi empregado pelos dois produtores, mas acabou voltando para o tráfico até ser preso.

O produtor CELSO ATHAYDE ao falar do Projecto Falcão, que também está incluso um livro publicado pelos mesmos autores, referiu que o seu objectivo principal é a consciencialização da sociedade para a realidade dos jovens das comunidades pobres: “O Falcão não é um caso de polícia, não é uma denúncia, não é uma lamentação. Falcão é sobretudo uma oportunidade que o Brasil vai ter para refletir sobre uma questão do ponto de vista de quem é o culpado e quem é a vítima. Falcão é uma convocação para que a ordem das coisas seja definitivamente mudada.”

Com cenas fortes, deprimentes e chocantes, a população tomou conhecimento daqueles factos negativos e reais que repercutiu mundo afora. Jovens e crianças, fora da escola, apresentados em posse de armas e usando drogas, fizeram daquela reportagem um verdadeiro documento comprobatório da insanidade do tráfico, do total desrespeito às Leis e da pouca vontade política governamental para resolver o problema que continua praticamente no mesmo patamar. Comprova-se, pelos detalhes e pelas filmagens apresentadas, que os “meninos do tráfico” sucumbem periodicamente. Trabalham somente para manter os seus vícios e para ajudar as suas famílias.

A escritora LYA LUFT formou a sua opinião emocionada no item “ponto de vista” referente ao citado documentário, quando disse na edição 1.950 da revista Veja on-line: “Nós todos somos culpados de que eles tenham existido, sofrido, matado e morrido, sem nenhuma possibilidade de vida, de esperança e de dignidade”.
E ainda no seu texto discorre a referida escritora: “Muito mais existe do que foi mostrado. Pior: muita gente poderosa, de rabo solenemente preso, vive daquela desgraça; muita cumplicidade perversa promove e mantém aquilo; tudo prolifera e floresce com muito arranjo sinistro – como sinistra, disse um daqueles meninos, era a sua vida: “a vida da gente aqui é sinistra e louca”, ele disse com sua voz fraquinha. Vou pensar todos os dias que continuam morrendo crianças iguais àquelas, que poderiam ser meus filhos, teus filhos, nossos filhos. Eram nossos, aqueles meninos e meninas, sonados, ferozes ou tristíssimos, que a gente tem vontade de botar no colo e confortar. Mas confortar com o quê? E aquela arma, e aquelas drogas, e aquela infelicidade, e aquela desesperança? Fazer o quê?”
A questão dos grandes traficantes fazerem parte do crime organizado também é uma realidade; não fosse isso, não haveria verdadeiros arsenais em posse deles. São armas poderosas e das mais modernas em mãos do tráfico que entram no país de forma “misteriosa”.

Sem entrar no mérito da questão, e apenas para ilustrar a concordância verdadeira de ligação entre o tráfico de drogas e o crime organizado, há de se ressaltar o entendimento defendido por GUARACY MINGARDI, Doutor em Ciências Humanas e actual Director Científico do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente, na sua tese de Doutorado em 1996 junto à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo sobre o tema “O Estado e o crime organizado”, quando aponta as quinze características inerentes dessa organização criminosa que comunga com os mesmos actos do tráfico:

1) Práticas de actividades ilícitas;
2) Atividade clandestina;
3) Hierarquia organizacional;
4) Previsão de lucros;
5) Divisão do trabalho;
6) Uso da violência;
7) Simbiose com o Estado;
8) Mercadorias ilícitas;
9) Planeamento empresarial;
10) Uso de intimidação;
11) Venda de serviços ilícitos;
12) Relações clientelistas;
13) Presença da lei do silêncio;
14) Monopólio da violência;
15) Controlo territorial.

Segundo a reportagem intitulada “Vítimas da indústria do crime” da revista Veja on-line, edição 1.796, o próprio Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando discursava para uma plateia de metalúrgicos em São Paulo, admitiu:

“Não podemos ficar assustados 24 horas por dia. O crime organizado não é mais uma bandidagem comum que nós conhecíamos. É uma indústria de fabricar dinheiro com as drogas.”

O crime organizado possui vários tentáculos, e esses tentáculos procuram sempre atingir a protecção dos Poderes constituídos. Vez por outra a Polícia descobre a participação de Autoridades públicas ligadas àquela organização criminosa. A maioria das denúncias de corrupção para protecção ao crime organizado recai sobre a própria Polícia, isso é facto público e notório; contudo, vários Policiais já foram expulsos das suas corporações, foram penalizados ou respondem a Processos por crimes equivalentes, o que comprova que a Polícia de hoje, em regra, é Instituição séria e deve ser respeitada como tal.

Assim como ocorre com a Polícia, diversos sectores de outros Poderes Públicos, também já foram objecto de denúncia, investigação ou Processo com as devidas penalidades para algumas das pessoas efetivamente ligadas às organizações criminosas.

Assim, o “Poder paralelo” do tráfico governa as suas áreas e enriquece os seus líderes de forma geométrica, praticando todo o tipo de crime para manter e aumentar diariamente o número de consumidores e dependentes químicos das drogas, que além de morrer física e mentalmente, ainda leva consigo os seus entes queridos para a desgraça, ainda faz vítimas outras pessoas da sua insanidade em busca do falso prazer da droga, aumentando em consequência o índice de criminalidade no País.

Do outro lado, do lado oposto da gravíssima problemática encontra-se o viciado. Encontra-se a sua família, os seus verdadeiros amigos… Encontra-se a população atónita, indefesa e impotente… Encontra-se o Poder público com pouca vontade política para debelar ou mesmo amenizar tal situação.

A Polícia, por sua vez, como real protectora da sociedade, procura cumprir a sua árdua e difícil missão de também combater esse crime. Nesse sentido, agindo habitualmente de maneira investigativa ou repressiva, a Polícia realiza, de quando em vez, ótimas operações com apreensão de grande quantidade de drogas, armamento de grosso calibre e alto poder de fogo, tais como fuzis e metralhadoras entre outras, granadas e farta munição, além de se prender indivíduos maiores dos grupos organizados; contudo, é facto que mesmo de dentro dos presídios os chefes do tráfico continuam comandando as acções criminosas das suas áreas de actuação ou determinando a morte de pessoas a seu bel prazer.

É facto também que quando morre alguém importante de determinado grupo do tráfico, de logo, é ele substituído por outro em grau de hierarquia equivalente da sua equipa, para dar continuidade à administração daquele território. Destarte, por haver também a guerra entre grupos pelo poder ou tomada de poder de determinada área e, das batalhas, deixam-se rastos e rios de sangue.

Entretanto, é também facto presente em todo o lugar, que no quotidiano das acções policiais repressivas às drogas, o que se vê, na maioria das vezes, são prisões e apreensões de pequenos traficantes, que não deixam de ser também acções necessárias; contudo, observa-se perfeitamente que tais pessoas são moradores de barracos ou palafitas das periferias das cidades, o que subentende sejam eles intermediários ou vendedores ao serviço dos grandes traficantes.

Relacionado com as acções preventivas dos órgãos competentes, actos investigativos e repressivos da Polícia nesse âmbito, é verdade que a “Inteligência Policial”, a “Inteligência Criminal”, é de suma importância. É essencial na luta para conter o tráfico e o crime organizado; porém, a experiência brasileira nesse contexto não se mostrou até agora, em geral, frutífera, pois a epidemia da droga alastra-se, atingindo novos adeptos todos os dias a todo o momento.

Assim, estamos perdendo a partida para o crime organizado… Assim, estamos perdendo a luta para o tráfico… Assim, estamos perdendo os nossos jovens para o crack… Assim, estamos perdendo o futuro da Nação para as drogas!…

Até parece que apesar de todos os alertas feitos, as Autoridades constituídas ainda não atentaram para esse gravíssimo problema: as chamadas “cracolândias” estão se proliferando em alta escala pelos quatro cantos do país. Uma epidemia de crack que supera todas as outras drogas juntas, destarte já haver também o MERCADÃO DAS DROGAS. Um mercado livre com grande variedade de entorpecentes em promoções e tudo mais, ocorrido em determinada rua da metrópole São Paulo no cair da noite, cuja filmagem e reportagem comprobatória fora mostrada em Jornal da TV Record.

Sem querer brincar com a situação, muito pelo contrário, no sentido de espairecer um pouco o assunto tão sério e preocupante, antes de adentrarmos na questão do fabrico químico do crack, as suas consequências nefastas no organismo humano, alguns exemplos da tragédia familiar causada pela droga e dos apelos necessários, façamos de conta por um momento, até para prender mais o leitor ao presente texto, que estamos num jogo, numa partida de futebol disputada entre as equipas da MORTE versus SOCIEDADE, complementando o comentário somente com o trio de ataque demolidor do nosso adversário, qual seja, a cocaína, a merla e o crack:

A equipa da MORTE, que disputa a partida com a SOCIEDADE, continua em boa performance e em ótima fase, exterminando sempre os seus adversários, é formada por: Skank, maconha, haxixe, ecstasy, morfina, heroína, ópio, LSD, cocaína, merla e crack… O banco de reservas conta com: Paco, codeína, psicotrópico, rebite, álcool e fumo…

O técnico da equipa da MORTE, o popular traficante que é bastante respeitado e temido pelo povo, está bastante otimista e satisfeito com o rendimento da sua equipa. Traficante acredita sempre na vitória sobre a SOCIEDADE, que apesar de ser uma grande equipa e ter bastante força, é uma equipa apática e desmotivada…

Apostando no desânimo da SOCIEDADE, que está atónita em campo, os Directores da equipa da MORTE sentem-se gratificados com as estupendas arrecadações que sobem jogo aapós jogo, e por isso prometem investir mais e mais no grupo com o intuito de transformá-lo numa equipa imbatível…

O trio de ataque arrasador da equipa da MORTE, que é interligado um ao outro, vem cumprindo a sua tarefa satânica de estraçalhar os seus adversários… A geração mortificadora dessa equipa provém da base da cocaína; então, com a adição de produtos químicos altamente nocivos para o ser humano nasceu a merla e o crack. Essa dupla de ataque aniquilador que é filha da cocaína, nada mais é do que UM MAL PIORADO.

O crack, que é o craque da equipa da morte, é também conhecido por ZIDANE, em alusão ao craque de futebol da Seleção Francesa que derrotou o Brasil em Copa Mundial passada.

A cocaína é uma droga em pó de cor branca, derivada das folhas da planta de coca, cultivada principalmente na América do Sul, em maior escala, na Colômbia, Bolívia e Peru.

A folha da coca, que era usada na antiguidade por índios e nativos da área em forma de mastigação, cujo objetivo era ganhar força e energia, transformou-se através dos tempos, por meio da refinaria e mistura a elementos químicos, em cocaína.

A cocaína tinha um propósito inicial meramente medicinal; contudo, logo foi desvirtuado o seu objectivo e iniciado assim o novo problema social, dado que as consequências para o seu dependente químico são devastadoras.

A cocaína é uma substancia altamente viciante e os seus consumidores tornam-se fisicamente e psicologicamente dependente da droga, ao ponto de não poderem controlar os seus próprios desejos e impulsos.

A pesquisadora e cientista STEPHANIE WATSON explica bem as formas de utilização dessa potente droga: “ A cocaína é uma droga que pode ser utilizada de três maneiras: cheirando, injetando ou fumando. A forma cheirada, ou seja, a cocaína em pó, é feita pela dissolução da pasta de coca retirada das folhas da planta em mistura de ácido hidroclorídrico e água. E acrescentado sal potássio à mistura para separar as substâncias indesejadas, que devem ser removidas. Depois, acrescenta-se amónia à solução restante, e o pó sólido da cocaína separa-se. Para injetar cocaína, o consumidor mistura o pó com um pouco de água e usa uma seringa hipodérmica para forçar a solução directamente na veia. A cocaína em pó forma a base da cocaína de base livre. A cocaína de base livre tem um ponto de fusão baixo, por isso pode ser fumada.”

A professora e pesquisadora da Equipa Brasil Escola, PATRÍCIA LOPES, explica assim as consequências advindas para os consumidores da cocaína: “Devido aos efeitos de euforia e prazer que a cocaína proporciona, as pessoas são seduzidas a utilizá-la para vivenciar sensações de poder; entretanto, tais efeitos têm pouca duração. Logo o indivíduo entra em contacto com a realidade, aspecto que desperta uma grande ansiedade em poder utilizá-la novamente. Aceleração ou diminuição do ritmo cardíaco, dilação da pupila, elevação ou diminuição da pressão sanguínea, calafrios, náuseas, vómitos, perda de peso e apetite, são alguns dos efeitos biológicos da cocaína.”

A merla, a exemplo do crack, também é uma droga perigosa e devastadora. Como já foi dito, é derivada da cocaína. Trata-se da junção de folhas de coca com alguns produtos químicos perigosíssimos para a saúde humana, tais como ácido sulfúrico, que é altamente corrosivo e usado em bateria de carro; querosene, que é derivado do petróleo tendo outros propósitos, e a cal virgem, ou cal viva, que é usada em construções ou plantações, entre outros, que ao serem misturados transformam-se numa pasta branco-amarelada onde se concentra mais ou menos 50% de cocaína. A droga é fumada pura ou misturada num cigarro comum ou num cigarro de maconha; quando isso ocorre, tal “experimento” recebe a denominação de BAZUCA. “A bazuca é a mistura de tudo o que não presta com os horrores da insanidade humana.”

A fumaça altamente tóxica da merla é rapidamente absorvida pela mucosa pulmonar excitando o sistema nervoso, causando euforia e aumento de energia ao consumidor; com isso, advém a diminuição do sono e do apetite, com a consequente perda de peso bastante expressiva.

As consequências para o organismo humano do consumidor de merla são idênticas às do consumidor de crack, uma vez que a sua composição química é bastante parecida.

O consumidor de merla pode ter convulsões; como consequência, pode levá-lo a uma parada respiratória, coma, parada cardíaca, e, enfim, a morte. Além disso, para os fracos e debilitados sobreviventes, há perda de dentes, ao longo do uso da droga, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição química do produto assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição.

Para completar o item discorrido, há de se acolher o relato do nobre Professor JEFERSON BOTELHO, quando assevera num dos seus artigos pertinentes para o tema: “Como o crack, a merla vai destruindo o seu consumidor em vida, a ponto dele perder o contacto com o mundo externo, tornando-se um zumbi movido pela compulsão à droga que é intensa. Como os efeitos têm curta duração, o consumidor faz uso dela com muita frequência, e a sua vida passa a decorrer em função da droga que atinge o organismo através dos pulmões quando é fumada, e pela corrente sanguínea alcança o cérebro causando alterações psíquicas.”

De volta ao crack, a exemplo da sua congénere, a merla, além da droga possuir uma grande percentagem de cocaína na sua fórmula absurda, gananciosa, inconsequente e mortal, constituído por vários produtos químicos altamente nocivos e destrutivos para a saúde do consumidor, é também o produtor do vício mais rápido entre as drogas. Com duas ou três pedras fumadas, o consumidor vicia-se e o seu organismo passa a pedir mais e mais droga, tornando-o de imediato um dependente químico.

O Representante brasileiro do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), BO MATHIASEM, admite a preocupação com essa droga: “O crack é mais barato, sim, e vicia muito, agravando rapidamente o problema da dependência química”.

Realmente, por possuir no seu composto produtos mais baratos tais como a cal virgem e o ácido sulfúrico, o crack também é mais barato do que as outras drogas; contudo, sem contar com as consequências advindas do seu uso, é certo dizer que é aquele barato que se torna mais caro, pois a necessidade do consumidor é mais frequente, em decorrência do curto espaço de tempo de duração do efeito químico alucinogénio no seu organismo.

A disseminação do crack tomou conta do País, e os menos avisados ou mesmo os já viciados noutras drogas passaram a experimentá-lo. Com isso, o vício terminou pegando-os de vez, como uma teia de aranha em armadilha para as suas presas.

A socióloga SILVIA RAMOS, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, dá o seu exemplo quanto ao problema da proliferação do crack: “É impressionante. A qualquer hora do dia vemos crianças e adolescentes consumindo a droga e deitados no chão. Áreas dominadas pela facção Comando Vermelho passaram a vender, e isso vem como um tsunami.”

Para um País imenso como é o Brasil, o uso do crack tornou-se uma constante do Oiapoque ao Chuí, aumentando a riqueza dos grandes traficantes e do crime organizado em proporções gigantescas.

O psiquiatra GILBERTO BROFMAN, director técnico do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, explicou em poucas palavras a nova moda de droga: “Estamos perante uma epidemia, porque há um número explosivo de casos nos últimos três anos. Antes, era uma raridade; tínhamos nas unidades 90% de outras dependências e 10% de crack. Hoje, temos o contrário.”

O referido psiquiatra cita um estudo feito em São Paulo, que aponta que a mortalidade dos viciados em crack é de 30% em cinco anos. Complementa o seu raciocínio: “É uma droga diferente das outras e muito mais severa. Não há outra droga que produza um declínio físico e mental maior para o paciente. As consequências físicas são muito severas, como enfartes, acidente vascular cerebral (AVC), doenças hepáticas, dano cerebral e pulmonar, além de hipertensão.”

Segundo estudos realizados por especialistas na área, as dificuldades para o tratamento dos viciados em crack também são imensas; por isso, a grande preocupação das Autoridades ligadas ao tema da intensa problemática.

Tal entendimento é corroborado pela psicóloga SANDRA HELENA DE SOUZA, directora técnica da Fundação de Proteção Especial do Rio Grande do Sul, que acrescenta: “Considerando a gravidade da droga e a baixa resolutividade em termos de tratamento, é uma epidemia. O sentimento na sociedade, e principalmente nas famílias que vivem esse drama, é de impotência.”

Para a citada psicóloga, o País não está preparado com atendimento necessário para enfrentar a problemática dessa droga: “O crime está muito organizado, e a sociedade atrasada.”

Todos os meses, todas as semanas, todos os dias nos deparamos com notícias trágicas envolvendo viciados do crack.

O início da trajectória de crimes praticados pelo dependente químico do crack ou da tragédia familiar causada é sempre a mesma: “O viciado, depois de gastar tudo o que tem, passa a desfazer-se dos objectos da sua própria casa ou, quando criança ou jovem, passa a furtar os objectos da casa dos pais ou dos seus familiares e amigos para vender ou trocar por crack. Depois, outros furtos em tudo quanto é canto. Posteriormente, roubos a transeuntes ou em comércio… e em consequência, homicídios e latrocínios.”

Se nesse artigo apelativo fossem pormenorizados todos os casos criminais envolvendo o uso do crack no País, certamente o presente texto viraria um verdadeiro “Tratado”; por isso, a razão apenas superficial do item, retirado de algumas matérias ou manchetes jornalísticas diversas:

MÃE MATA SEU PRÓPRIO FILHO VICIADO EM CRACK
Em pleno Domingo de Páscoa, o crack gerou um crime de homicídio num bairro nobre de Porto Alegre. Uma mãe idosa de 60 anos matou o seu filho de 23 anos a tiros, depois de perder as esperanças de recuperá-lo das garras do crack. A mãe desesperada confessou o crime à Polícia e contou todo o sofrimento que passou durante oito anos na tentativa de tirar o seu filho daquela triste situação. Parentes das partes testemunharam que o jovem por várias vezes tentou matar os seus pais e que o crime praticado pela idosa foi um acto de agonia, de liberdade, de alívio e de defesa própria…

JOVEM MATA AVÔ POR CONTA DO CRACK
O facto ocorreu em Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Há alguns meses, um jovem de 19 anos matou o seu avô e feriu a sua avó a facadas para lhes roubar uma televisão e negociar em troca do crack. A avó do criminoso relatou que só não foi também assassinada porque se fez de morta…

E tantas outras manchetes de jornais no quotidiano brasileiro: MÃE CHORA A PERDA DO SEU FILHO PARA O CRACK; VICIADO EM CRACK MATA A SUA MÃE; MÃE PERDE SEU SEGUNDO FILHO PARA O CRACK; PAI ACORRENTA SEU FILHO VICIADO EM CRACK; VICIADO MATA SEU IRMÃO POR CAUSA DE UMA PEDRA DE CRACK; VICIADO ENGOLE UMA PEDRA DE CRACK COM A CHEGADA DA POLÍCIA; VICIADO EM CRACK MATA A SUA COMPANHEIRA E FILHA; CONSUMIDOR DE CRACK CONFESSA DOIS LATROCÍNIOS; PRESA DUPLA DE ASSALTANTES VICIADA EM CRACK; PAIS EM DESESPERO DENUNCIAM CRIMES PRATICADOS PELO SEU FILHO VICIADO EM CRACK; CONSUMIDOR DE CRACK PRATICA MAIS UM ASSALTO A ÔNIBUS; MAIS UM SUICÍDIO PRATICADO POR DEPENDENTE DE CRACK; A CRACOLÂNDIA ESTÁ CHEIA DE CRIANÇAS FUMANDO CRACK ABERTAMENTE; MAIS UMA TRAGÉDIA EM FAMILIA POR CAUSA DO CRACK; PAI MATA FILHO CONSUMIDOR DE CRACK; VICIADO EM CRACK MATA IRMÃ QUE LHE ACONSELHAVA PARA O BEM; CONSUMIDOR DE CRACK MORRE EM TROCA DE TIROS COM A POLÍCIA; JUVENTUDE PERDIDA NO CRACK; CONSUMIDOR DE CRACK FAZ MAIS UMA VÍTIMA DE LATROCÍNIO; VICIADA EM CRACK QUEIMA COM CIGARRO O SEU FILHO DE TRÊS ANOS DE IDADE; E por aí vai!…”

De todo o modo, bem perto de todos nós, tudo isso acontece. Drogas como o crack tomam conta de boa parcela da sociedade, principalmente dos jovens, constituindo perigo tanto para o próprio consumidor, quanto para a sua família e para as demais pessoas que se atravessam no seu caminho.

É de bom alvitre registar o entendimento do Professor e Educador do Rio Grande do Sul, CLEBER C. PRODANOV, quanto aos projectos públicos de combate às drogas: “Parece que as políticas adotadas até aqui para frear o consumo das drogas não tem atingido os seus objectivos somente com a repressão, sem a consciencialização. A educação e um convívio mais profundo e dialogado entre as pessoas, especialmente entre pais e filhos, poderá livrar-nos dessa epidemia. Não podemos achar que a polícia ou a medicina resolverão os problemas, que, muitas vezes, se iniciam nos lares, escolas e outros lugares de convivência, principalmente dos jovens, mais expostos, por vários motivos, à atração do mundo das drogas.”

A Polícia, via de regra, faz o que pode no combate a essa insanidade humana. Não é a Polícia omnipresente ou omnipotente para evitar toda essa parafernália e para prender todos os traficantes ou desbaratar de vez o narcotráfico e o crime organizado; por isso, cumpre o seu mister, está à espera de novos paradigmas ou de acções mais efectivas por parte dos Poderes constituídos.

Diante de tudo isso, diante de todos esses factos comprobatórios que evidenciam a realidade de que o Brasil corre sério problema de identidade racional com as drogas e em especial com o crack, só nos resta o GRITO DE ALERTA:

- É preciso mudanças imediatas;
- É preciso acções governamentais rigorosas e eficientes para conter o tráfico;
- É preciso que se mudem as Leis e se aplique a pena máxima ao traficante de drogas;
- É preciso que haja aulas exemplificativas com mais frequência em todas as Escolas do Brasil para consciencializar o aluno sobre o perigo das drogas;
– É preciso que os pais também se posicionem com os seus filhos alertando-os sobre essa epidemia;
- É preciso que o povo denuncie com mais frequência os pontos de venda de drogas;
- É preciso que a população denuncie diariamente os traficantes da sua área residencial;
- É preciso que a sociedade denuncie às Corregedorias ou Ouvidorias de Polícia quando Policiais estiverem acobertando ou envolvidos com o tráfico de drogas;
- É preciso Leis mais rígidas e menos burocráticas para excluir e punir em curto prazo de tempo o Policial protector do tráfico de drogas;
- É preciso que o cidadão denuncie à Polícia, ao Ministério Público, à OAB ou órgão congénere quando souber que qualquer Autoridade ou Funcionário Público esteja envolvido com o tráfico de drogas ou com o crime organizado;
- É preciso que haja mais e melhores clínicas especializadas em tratamento ao drogado à serviço do Estado;
- É preciso que haja mais psiquiatras, psicólogos, terapeutas, psicanalistas e médicos especialistas com função pública para tratar dos dependentes químicos das drogas;
- É preciso que haja um melhor e mais amplo engajamento das Igrejas e demais entidades religiosas em busca de soluções para amenizar o tráfico de drogas;
- É preciso que haja mais escolas públicas profissionalizantes para tirar o jovem das ruas e das drogas, dando-lhes uma profissão digna;
- É preciso que a sociedade civil debata o tema com mais veemência e se engaje efectivamente na luta contra as drogas, contra o crack;
- É preciso que se invista mais nos sectores que combatem o crime organizado, pois aí está a raiz profunda do problema do tráfico;
- É preciso que haja medidas preventivas, repressivas e curativas efectivamente sérias no combate às drogas;
- É preciso que haja programas educacionais efectivos para fortalecer a auto-estima do jovem no sentido de livrá-lo das drogas e levá-lo aos desportos, aos estudos;
- É preciso que os Governos invistam mais no Policial pagando-lhe salário digno para melhor incentivá-lo no combate às drogas;
- É preciso que os Governos invistam mais nos sectores de Inteligência Policial e nos Órgãos Policiais especializados para melhor se combater o tráfico de drogas;
- É preciso que se abandonem de vez as acções pirotécnicas e se criem projectos verdadeiros em todas as cidades do País para o controlo das drogas;
- É preciso que se formem mais craques no futebol, e outros desportos, na vida, não no crack da droga ou na droga do crack!

É desejo de todos nós, inclusive do viciado e dependente químico das drogas, do crack, viver intensamente por muito tempo, aproveitar os prazeres da vida com alegria e disposição, conviver amistosamente com os familiares e amigos, ir para onde quiser com liberdade e autonomia, e, acima de tudo, ser saudável física e mentalmente; por isso, é preciso que a presente acção apelativa seja compreendida e acatada por todos, para enfim se chegar o cidadão e a sociedade a uma vida efectivamente menos sofrível e mais vitoriosa.

Por: Archimedes Marques
(Delegado de Policia; Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela UFS) – archimedes-marques@bol.com.br

Referências bibliográficas e sites pesquisados:
- AMORIM, Carlos. CV e PCC: A irmandade do crime. Rio de Janeiro: Record, 2003.
- MAGALHÃES, Mário. O narcotráfico. São Paulo: Publifolha, 2000.
- MINGARDI, Guaracy. O Estado e o crime organizado. 1996. Tese (Doutorado).
- Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1996.
- BALBACH, Alfons. “Um Novo Mundo”. Edição Vida Plena. Itaquaquecetuba, São Paulo, 2006.
- GUISELINI, Mauro. Energia, Saúde & Qualidade de Vida. Editora Dedona. São Paulo, 2007.
- Dicionário Aurélio Buarque de Holanda.
- Wikipédia, a Enciclopédia livre.
- globo.com; veja.abril.com.br; zerohora.clicrbs.com.br; www.terra.com.br; www.baguete.com.br; www.espacoacademico.com.br; www.brasilescola.com; www.agenciabrasil.gov.br; www.testededrogas.com.br; www.jefersonbotelho.com.br; www.adepolalagoas.com.br; www.saude.hsw.uol.com.br; www.priberam.pt

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