Como aumentar as Competências Comunicativas

A aquisição da linguagem é considerada um marco fundamental no desenvolvimento infantil, potenciando todo o desenvolvimento sócio-cognitivo da criança.

Uma criança que não adquira a linguagem verbal nos primeiros anos de vida poderá estar a comprometer todo este processo. Em termos teóricos, é possível descrever as características gerais da evolução da linguagem infantil, tendo como premissa que cada criança tem o seu ritmo próprio de desenvolvimento, servindo as seguintes etapas unicamente como marcos gerais de referência:

Etapas

Até aos 3 meses

O bebé sorri, vocaliza e palra numa primeira fase em resposta a solicitações do adulto e depois espontaneamente. Utiliza o choro para comunicar as suas necessidades. Reage aos sons.

Até aos 6 meses

Faz muitas vocalizações, imitando a entoação do adulto. Ri alto, dá gargalhadas e pequenos gritos de prazer. Reage com intensidade ao ouvir sons familiares e volta-se ostensivamente para as fontes sonoras.

Até aos 9 meses

Vocaliza várias sílabas sem significado. Percebe o «não». Faz jogos de imitação (bate palminhas, «A galinha põe o ovo»…).

Até aos 12 meses

Imita gestos, diz adeus e abana a cabeça para dizer «não». Faz gestos e emite sons para chamar a atenção. Repete sons e vocaliza com entoações diversas. Compreende ordens simples (exemplo: «não mexe»). É capaz de dizer pequenas palavras com sílabas simples.

Até aos 18 meses

Imita sons e comportamentos do adulto, mesmo na sua ausência. Diz palavras com verdadeiro significado. Compreende e executa ordens simples (uma de cada vez). Aponta com o indicador objectos e imagens.

Até aos 24 meses

Pede para comer, diz muitas palavras e algumas com significado de frases (embora muitas vezes só os adultos mais próximos as entendam), designa-se a si próprio pelo nome, faz recados simples.

Nestes dois primeiros anos, a sua linguagem vai progressivamente atingindo um nível de expressão linguística que lhe permite fazer perguntas, expressar os seus desejos e até contar histórias, mostrando por vezes dificuldade em distinguir o real da fantasia.

Entre os 2 e os 4 anos

A criança já está equipada com todo um conjunto de novas competências para uma exploração independente: domina a linguagem oral, embora se possam observar alguns problemas de articulação e infantilismo (“falar à bebé”).

Entre os 4 e os 5 anos

A criança adquiriu a linguagem básica, tem menos infantilismos e pronuncia bem quase todos os sons. Demonstra interesse pela linguagem escrita, procurando compreender as regras e gostando de experimentar os sons que a compõem, ao mesmo tempo que revela prazer em actividades que impliquem a escrita, gostando de expressar as suas opiniões e de ser ouvida.

A partir desta idade a evolução dá-se sobretudo ao nível do aumento do vocabulário e da complexidade da estruturação do discurso.

 

E se não fala?

E se a criança ainda não fala?

Se a criança apresenta um atraso significativo em relação ao que é esperado para a sua idade, os pais deverão transmitir as suas preocupações ao pediatra e, antes de mais, fazer exames auditivos que possam despistar alguma deficiência a este nível. Se existirem outras dificuldades (na relação, na autonomia, na socialização…) deverão ser investigadas as razões do atraso no desenvolvimento e tomar as medidas adequadas.

Contudo, existe um grande número de crianças que apresenta unicamente atraso no desenvolvimento da linguagem verbal, com boas capacidades compreensivas mas com dificuldades na expressão e que necessitam de maior estimulação. As estratégias aqui apresentadas facilitam o desenvolvimento da linguagem oral.

Para que uma criança fale, é necessário falar com ela, condição indispensável para a aquisição da linguagem. É também fundamental criar espaço e dar tempo à criança para que esta possa «falar».

 

Estratégias

Estratégias para promoção da aquisição da Linguagem
(adequadas em contexto escolar e familiar)

Minimize as questões directas

Colocar questões do tipo: “ O que é isto? O que é que queres?” numa fase inicial tornam-se complexas para as crianças. As questões e as ordens são adiadas até existir algum domínio linguístico.

Vá fazendo comentários

Siga a criança, observando aquilo que ela vai fazendo e fornecendo-lhe como que um diálogo interno, sempre com um discurso claro e com conceitos que ela seja capaz de aprender. Os comentários sobre as acções que a criança faz facilitam o desenvolvimento da linguagem (exemplo: “estamos a descer as escadas”; “é o cão”).

Espere a sua vez

Numa troca comunicativa, o adulto espera com uma antecipação visual clara a vez da criança participar no diálogo. Sempre que a criança fizer um esforço para corresponder a essa expectativa, deve ser recompensada. Essa expectativa pode ser promovida das seguintes formas:

* estabelecer contacto visual (se necessário tocando na cara da criança para a virar para si);

* virar a cabeça e o corpo na direcção da criança;

* colocar as sobrancelhas ligeiramente tensas.

Crie situações de comunicação

Encoraje a criança a comunicar espontaneamente, criando situações que provoquem essa necessidade. Não antecipe tudo o que ela precisa: leve-a a sentir a necessidade de pedir aquilo que quer (exemplo: se a criança quer beber água e aponta, “finja” que não percebe para “obrigar” a criança a “verbalizar. Reforce, se ela fizer um som que se assemelhe à palavra).

Use e abuse de gestos e expressões faciais

O gesto e o movimento tendem a encorajar o discurso:

* capte a atenção da criança com os gestos que faz;

* utilize suporte visual para ajudar a compreender o significado de vocabulário pouco claro ou novo.

Modele formas de comunicar, apresentando um modelo daquilo que a criança deverá dizer

Procure ser um modelo adequado de linguagem em vez de corrigir directamente os erros (ser sistematicamente corrigido é muito frustrante para a criança). O modelamento mantém uma postura afirmativa, a correcção parece indicar que estamos a focar a nossa atenção apenas nos erros de comunicação e não na intenção de comunicar. Procure repetir o que a criança disse de forma correcta e clara, num contexto adequado.

Reduza a extensão das afirmações

Utilize frases curtas sempre que estiver a falar com a criança ou a comentar a sua actividade. Desta forma, irá maximizar a compreensão, assim como vai modelar algo que espera que a criança seja capaz de imitar no nível de desenvolvimento de linguagem em que se encontra. Por exemplo, se a criança ainda não é capaz de usar palavras, fale com ela apenas com palavras ou com frases muito curtas; se ela só utiliza frases de duas palavras, limite o seu discurso ao uso de frases dessa natureza.

Use um tom, ritmo e volume exagerado

Torna-se necessário captar a atenção de criança que apresenta problemas em comunicar de forma espontânea. Use uma entoação e um volume exagerados para facilitar esse contacto. Utilize lenga-lengas e canções; deixe espaço para que a criança colabore com uma palavra.

Faça sons

Faça sons que acompanhem a actividade física (exemplo: fazer saltar bolinhas enquanto diz: “Pim, pim, pim”). Diga sons e dê tempo para que a criança o imite: só compostos de vogais iguais (exemplo: “Aaaaaaaaa”); compostos por vogais e consoantes (exemplo: “Pa, pa, pa”); associe sons a brincadeiras (exemplo: “Cu-cu”).

Reforce o contacto visual

Olhe para a criança, pois isso é crucial para facilitar a comunicação. Olhe para os olhos da criança e encoraje-a para que ela faça o mesmo. Utilize frases do tipo: ”Olha para mim”.

Reforce qualquer esforço

Para promover e reforçar a comunicação espontânea, deve reforçar toda e qualquer tentativa ou esforço por parte da criança. Não ignore as tentativas de comunicação. Responda sempre de alguma forma, verbalmente ou não, mas reforce o esforço da criança para comunicar, mostrando-lhe como é importante para si que ela o faça.

Coloque questões que impliquem acções

Exemplo, “Onde está o teu nariz?”; acompanhe a resposta da criança com vocalizações: “Tá aqui!”; esconda um objecto e diga “Não há”, fazendo o gesto com as mãos.

Reforce qualquer som espontâneo que a criança faça

Repita-o e brinque com esse som, exagerando-o, mimando-o ou entoando uma música.

Leve a criança a pedir mais

Faça gestos que acompanhem o vocábulo “mais” (exemplo: colocar a criança “a cavalo” nos joelhos, parar, dizer “mais” e esperar a resposta da criança para recomeçar).

Divirta-se

Fale com a criança de uma forma calma, com um tom e um ritmo agradáveis. Sorria sempre que possível. Ajude a criança a associar a comunicação com afecto e prazer. Tente manter-se calmo, ser imaginativo e criativo.

 
 

Fonte: Sapo Família[textads]

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