Pesquisadores americanos suspeitam que o colesterol alto nas crianças diminui ao longo do tempo

Níveis muito elevados de colesterol em crianças podem diminuir ao longo do tempo, mesmo sem intervenção de medicamentos, segundo pesquisadores do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Colesterol.jpg Os resultados reacendem um debate sobre as consequências do colesterol alto em crianças, e se as drogas de controlo são apropriadas quando mudanças na dieta e actividades físicas não se mostrem suficientes.

Essas drogas, que incluem as estatinas, são usadas em adultos para reduzir o risco de doenças cardíacas, uma das maiores causas de morte nos países ocidentais. Mas não está claro se elas também valem para as crianças.

O novo estudo, publicado na revista Pediatrics, mostra que, depois de alguns anos, algumas crianças com colesterol alto deixam de ser indicadas para tratamento com remédios.

Enquanto essa suspeita não for comprovada – para que o tratamento medicamentoso seja abandonado completamente -, os médicos não devem deixar de prescrever remédios para o colesterol em crianças, alertam os pesquisadores.

“Tanto em crianças quanto em adultos há um pouco de variabilidade nos índices ao longo do tempo”, disse David S. Freedman, do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças. “Pessoas com níveis muito elevados de colesterol tendem a ser aquelas que terão mau colesterol”.

“Meu trabalho enfatiza que, provavelmente, serão necessárias pelo menos duas ou três medições para examinar crianças que estão apenas tendo um dia ruim”, acrescentou.

Os pesquisadores analisaram níveis de colesterol alterados ao longo do tempo num grupo de mais de 6.800 crianças de Bogalusa, Louisiana. As crianças foram testadas cinco vezes, em média, e cerca de metade delas também tinha feito medições como as de adultos.

Níveis iniciais de LDL (o “mau” colesterol) acabaram por mostrar-se fortemente ligados a níveis posteriores, mesmo depois de 20 anos. Mas, com o passar do tempo, as diferenças nos níveis de colesterol entre as crianças tenderam a diminuir, com níveis muito altos caindo e os baixos, subindo. Os pesquisadores disseram que as mudanças podem não ter tido nada a ver com a dieta ou alterações de exercícios, embora não possam afirmar com certeza.

As maiores quedas foram observadas em crianças que inicialmente tinham o colesterol muito alto, levando-as a uma média que, posteriormente, não necessitava de mais medicamentos.

Desde 2008, a Academia Americana de Pediatria recomenda que o tratamento medicamentoso seja considerada nos casos em que o colesterol LDL no sangue é de pelo menos 190 miligramas por decilitro (mg/dL). Se um pai ou avô tem doença de coração ou colesterol alto, o limiar é de 160 mg/DL.

Depois de quatro anos, os níveis de colesterol caíram abaixo do limiar em 60% dos casos em que crianças tinham índices acima do limite.

A questão fundamental, entretanto, é o que fazer com essas crianças que têm colesterol alto. Como disse o Michael L. LeFevre, da Universidade do Missouri, em Columbia, “infelizmente não há nenhuma evidência de que receitar medicamento a uma criança de 10 anos possa impedir uma doença cardíaca 40 anos depois”.


Fonte: Estadão – 19/07/2010

O Jogo em Crianças com Transtorno do Espectro Autista

Após seis anos de investigação, Ana Saldanha conseguiu criar um instrumento único que permite avaliar a capacidade de jogo das crianças com autismo. A descoberta valeu-lhe nota máxima com distinção e torna-a a única portuguesa doutorada em Educação Especial.

Autismo2.jpg Aos 30 anos, a maioria dos quais agarrados a livros, Ana ostenta um sorriso rasgado e não esconde o orgulho do trabalho realizado. Ontem, segunda-feira, na Universidade da Extremadura, pólo de Badajoz, defendeu durante cinco horas a tese “O Jogo em Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA): Desenvolvimento de um Instrumento de Avaliação”.

“Este é o fruto de alguns anos de investigação na área do Autismo” assegura Ana, revelando que a tese “surge pela carência de métodos/provas de Avaliação do Jogo Simbólico em Crianças Autistas”. A investigadora acredita e provou que “as crianças com autismo têm capacidade de jogo” apesar de “alguns autores discordarem”.

“Tanto para as crianças com incapacidade como os que não contam com ela, têm direito ao jogo e ao acesso aos brinquedos” explica Ana, admitindo que “os primeiros encontram sérias dificuldades para poder usar muitos dos jogos e brinquedos do mercado”.

Para a recém doutorada, o jogo “permite desenvolver a própria capacidade física e mental, sendo uma fonte de auto afirmação, satisfação e prazer”. O jogar “significa ser activo e preparar-se para a vida adulta”, afiança.

Depois do trabalho desenvolvido com 45 crianças espanholas, o novo instrumento de avaliação de Ana Saldanha permitiu demonstrar que “as crianças com TEA têm capacidade para poder desenvolver o jogo simbólico”, e ainda “comprovar que nesse jogo podem identificar-se dimensões que fazem referência a diferentes habilidades intelectuais específicas”.

A investigadora lembra que “o autismo é uma síndrome que ultimamente tem tido um maior enfoque de investigação”, devido ao facto de “actualmente, surgir nas escolas e nos centros educativos uma quantidade considerável de crianças com esta perturbação”. Mesmo assim, realça “deparamo-nos no dia-a-dia com uma grande dúvida no diagnóstico diferencial, entre autismo e nomeadamente o atraso mental”.

Durante a investigação, dividida entre Portugal e o país que escolheu para estudar, Espanha, Ana percebeu de imediato as grandes diferenças existentes. “Em Espanha trabalha-se em equipa. Os médicos, pediatras, psicólogos e outros especialistas trabalham em conjunto em prol da pessoa e isso não se vê em Portugal”, realça, assegurando que no caso do autismo “é importantíssimo este tipo de união entre todos”.

Defendendo que “a intervenção precoce é fundamental para o futuro das crianças com autismo”, Ana assegura que uma pessoa com autismo “pode ter qualidade de vida e até trabalhar”, basta para isso que “seja ajudada e estimulada”. Reforçando a necessidade de distinguir “autismo de doença mental”, a investigadora acredita que o instrumento de trabalho que desenvolveu permitirá dar mais felicidade aos autistas.


Fonte: Jornal de Notícias – 13/07/2010

A música ajuda ao desenvolvimento das crianças e adolescentes

A música não faz bem apenas aos ouvidos. Ajuda também a criança a desenvolver a coordenação motora, a expressão corporal, o raciocínio e a matemática. Esta nova visão sobre os benefícios da musicalização ajudou na aprovação de uma nova lei que vai entrar em vigor no ano que vem: todas as escolas terão de incluir a disciplina de Música no currículo escolar.

Musica.jpg Quem já teve contacto com a disciplina, como a estudante Nicolle Heep, 13 anos, percebe os benefícios. “Comecei tocando violino, passei para a flauta e o piano. Hoje consigo ter mais concentração e muita facilidade para aprender os conteúdos”, diz Nicolle. A mãe de Nicolle, Lirian Hepp, incentivou sempre os três filhos a tocar instrumentos. “Eles nunca precisaram de reforço escolar. Não sei se podemos dar o mérito apenas à música, mas acho que contribui bastante”, diz Lirian.

A Música existiu nas escolas até 1972. Depois disso, foi incluída timidamente nas disciplinas de Educação Artística e Arte. A velha visão polivalente da matéria agora será substituída pela lei 11.769, de 2008, que alterou a Lei de Directrizes e Bases e incluiu a música como ensino obrigatório em 2011.

A lei é sucinta. Não cita para quais séries é destinada nem o formato e o conteúdo das aulas. O Ministério da Educação (MEC) recomenda apenas que os alunos recebam noções básicas de música, dos hinos cívicos, dos sons de instrumentos de orquestras e os sons folclóricos e regionais. As directrizes mais específicas serão traçadas pelos conselhos municipais e estaduais de Educação.

Para o professor, músico e escritor Guilherme Campos, do Colégio Dom Bosco, o ideal seria que a música fosse ensinada do primeiro ao nono ano do ensino fundamental. No ensino médio deveria ser uma disciplina optativa.

Como a disciplina de Musi­calização existe há 20 anos no Dom Bosco, definiu-se um currículo em três etapas. Crianças até à 2ª série trabalham com a sensibilização para os ritmos, instrumentos, melodias e sons mais intensos e outros mais fracos. A partir da 3ª série tem contacto com a flauta como instrumento e na 8ª e 9ª séries trabalham o canto. “A flauta é ideal como instrumento musicalizador porque é fácil de tocar e de ser adquirida. Temos ainda uma sala com piano e os alunos podem trazer os instrumentos que quiserem”, explica Campos.

A presidente da Associação Brasileira de Educação Musical, Magali Oliveira Kleber, diz que é importante que a música seja tratada pela escola como produção de conhecimento e que as propostas pedagógicas levem em conta as raízes culturais regionais. Para Magali, a retomada da educação musical é fruto do trabalho de gerações de educadores e deve ser aproveitada ao máximo.

Trabalhar a música como meio de integração de grupo, respeitando as limitações de cada um, é outro aspecto que Campos defende. “É como no desporto, alguns alunos têm mais aptidão. Contudo, dá para trabalhar com todos.”

Formação

Com o retorno do ensino de música, os professores acreditam que a escola vai cumprir o objectivo da formação integral. O vice-coordenador do curso de Música da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Rogério de Brito Pergolb, afirma que sem o ensino formal da música o aluno acaba aceitando pacificamente tudo o que os media lhe oferecem.

O director do conservatório municipal de música de Ponta Grossa, Jairo Ferreira, acrescenta que a aprendizagem da música oferece disciplina e concentração. “A música faz parte da formação do ser humano. Hoje, o Brasil é carente de ética e disciplina e eu acho que o ensino da música tem muito a contribuir”, opina.


Fonte: Gazeta do Povo – 11/07/2010

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