Quando um recém-nascido abre os olhos, às vezes temos a impressão de que ele olha, mas não vê os objectos que estão por perto. Essa sensação ocorre porque, nos primeiros meses de vida, o sistema nervoso central ainda não está suficientemente maduro. Em circunstâncias normais, a nitidez da visão do recém-nascido irá melhorando à medida que o seu cérebro for amadurecendo.
A impressão de que o bebé “olha, mas não vê” é denominada clinicamente de “reflexo de fixação”, um fenómeno instintivo que se desenvolve entre os seis e os dez semanas de vida. Uma vez que o reflexo incorpora de forma definitiva o controlo visual, a criança começa a seguir os objectos com os olhos e move a cabeça na direcção de quem aparece à sua frente.
Além de representar um sintoma de maturidade, o reflexo de fixação já instaurado no sistema nervoso central do bebé significa também o início do contacto visual com as pessoas que costuma ter habitualmente ao seu redor.
Essa evolução visual prossegue até que, por volta dos três meses de vida, o bebé começa a perceber e memorizar os traços faciais da mãe e do pai. Além disso, ele começa lentamente a distinguir as cores.
Até a consolidação dessa fase, é possível que o bebé desordene os olhos, dando a impressão de estrabismo em determinados momentos, mas isso não é motivo para se assustar. Geralmente, representa a falta de coordenação e controlo nos centros cerebrais responsáveis pela adequada posição dos olhos, mas tende a melhorar com o tempo.
Dos três aos seis meses, a visão da criança evolui. A partir dos quatro meses, os olhos adquirem coordenação, e o bebé percebe cada vez melhor o mundo ao seu redor, ampliando o seu campo visual. Deve-se lembrar também que, nos dois primeiros anos de vida, a visão torna-se o sentido básico de comunicação da criança com o mundo exterior.
Função vital
De acordo com o pediatra José Manuel Moreno, entre 4% e 5% dos recém-nascidos apresentam problemas de visão. Mas, apesar das várias possíveis causas, um diagnóstico precoce e uma dieta controlada podem prevenir e tratar esses casos e evitar maiores complicações durante o crescimento da criança.
“É vital o papel do pediatra no diagnóstico dos problemas. Como o sistema visual do recém-nascido ainda não está bem formado, é fundamental que os pais acompanhem esse processo de amadurecimento para verificar se ele progride normalmente”, diz.
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a prevenção do problema de visão do recém-nascido é categórica: até aos seis meses, a melhor precaução para o bebé é alimentar-se com leite materno. Quando isso não é possível, recomenda-se usar uma fórmula de leite artificial com propriedades e nutrientes semelhantes ao leite materno.
Segundo Moreno, o leite da mãe é rico em diversos ingredientes benéficos para o desenvolvimento do bebé, como os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, sobretudo o DHA (ácido docosahexaenoico).
“Os ácidos graxos são fundamentais para o amadurecimento do sistema visual e para o desenvolvimento do cérebro. Dado que a retina e o córtex são as partes do corpo com maior quantidade de DHA, a dieta do recém-nascido, por meio da ingestão desse ácido através do leite materno, tem um impacto significativo no amadurecimento das funções cerebrais e visuais”, destaca Moreno.
Na opinião do pediatra, as crianças que tomam leite do peito apresentam melhor acuidade visual em relação aos que recebem uma fórmula artificial. No entanto, quando não é possível alimentar o bebé com leite materno, o ideal é que recebam um preparado artificial que conte com praticamente as mesmas propriedades que o leite da mãe.
O cérebro do recém-nascido, embora imaturo, é muito rico em gorduras insaturadas, sobretudo na região que afecta a retina. Segundo Moreno, é justamente na fase de crescimento que se torna mais importante o adequado nível de depósitos de poli-insaturados para que o bebé tenha um desenvolvimento saudável das suas funções.
Hora da consulta
Alguns dos problemas relacionados com a visão são evidentes, mas existem outros, como a falta de acuidade visual, que não são fáceis de perceber. Segundo o médico, é imprescindível que os pais levem a criança periodicamente ao pediatra para avaliar a visão do filho.
“O objectivo é que todas as crianças, antes de completarem quatro ou cinco anos, sejam examinadas para saber se sofrem de algum problema de visão. Deixar para avaliar mais tarde, pode reduzir significativamente as probabilidades de recuperação do olho”, explica Moreno.
Fonte: Donna – 26/04/2010







