A exagerada cultura do corpo

A beleza física, o emagrecimento e o rejuvenescimento são uma constante preocupação dos aficionados pelo corpo e pela saúde, que não pensam duas vezes na hora de recorrer a cirurgia plástica e a lipoaspiração. No Brasil, o mercado de cirurgia plástica movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano, colocando o país em terceiro lugar entre os países que mais realizam cirurgias desse tipo, perdendo apenas para EUA e México.

Ainda são os adolescentes os que mais procuram pelas cirurgias para corrigir certos “defeitos”. Nos últimos três anos, cerca de 15% dos pacientes que procuram um especialista têm entre 14 e 18 anos, quase o dobro do registado em território americano. Em 2006, dos 105 mil jovens submetidos às cirurgias estéticas, 70% eram meninas à procura de mamoplastia (diminuição de mamas), lipoaspiração, rinoplastia (plástica no nariz), entre outras. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica do Rio de Janeiro (SBCP-RJ), o médico Sergio Levy, a procura é tão grande que muitos cirurgiões se recusam a operar cerca de 20% dos pacientes, pois julgam que eles têm autocrítica exagerada em relação aos pequenos defeitos e em muitos casos baixa auto-estima, comum nesta idade.

Contudo, essa mania de beleza já não se restringe somente às mulheres. Ela já atingiu também os homens. Muitos empresários e executivos estão querendo manter uma boa aparência para crescerem na carreira, já que a competitividade do mercado é cada vez maior. “A cirurgia plástica tem sido a saída encontrada por muitos executivos cansados daquela barriguinha de chope [imperial] ou daquele indesejável queixo duplo. São operações simples, que duram de uma a três horas, não exigindo um tempo de recuperação que possa atrapalhar o desempenho profissional dos pacientes. Para se ter uma ideia, a busca dos homens por cirurgias estéticas teve um aumento de 20%”, diz Levy.

Esses dados apontam para uma indiferença dos pacientes às consequências de um procedimento cirúrgico e os danos que o mesmo pode causar à saúde, como paralisia dos músculos, deslocamento de próteses e até necroses. “As pessoas acham que é tudo simples como ir ao salão de beleza”, afirma Levy, que já atendeu caso de necrose na barriga, resultante de uma hidrolipo malfeita.

O alto número de cirurgias plásticas no país deve-se ao aumento da concorrência de cirurgiões altamente treinados, à redução do tempo de internação, à variação dos preços cobrados entre as clínicas e ao parcelamento do preço das cirurgias. O que é condenado pela SBCP-RJ. “Actualmente, muitos médicos e consultórios utilizam propaganda enganosa, prometendo “milagres”. Há, por exemplo, quem ofereça serviços com valores muito abaixo da tabela e parcelados em até 36 vezes, fazendo da cirurgia plástica um verdadeiro “varejão” [venda a retalho], condena Levy.

Fonte: Bonde – 24/10/2008

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