Amam-se os filhos incondicionalmente. Entretanto, muitas vezes o amor ao filho adolescente passa por provações; com alguma frequência se ouve a nomeação do adolescente como “aborrecida”.
Essa é uma expressão no mínimo injusta, carregada de preconceitos e advinda de um sistema de referência restrito e rígido do adulto. Aborrecidos talvez sejam as pessoas crescidas que nomeiam, dessa forma, o ser humano na adolescência.
A adolescência caracteriza-se pela instabilidade emocional, observada como altos e baixos no humor, pela consequente imprevisibilidade de reacção, pela tendência à desobediência, manifesta pelo negativismo, pela oposição às autoridades instituídas. Tudo isso significa normalidade, significa padrão desejável de conduta. Para se transformar numa pessoa, o adolescente precisa afastar-se psicologicamente do mundo dos pais, deixar de ser o “menino da mamã” e o “filhinho do papá”. A autonomia e a independência precisam ser conquistadas e, na maioria dos casos, isso processa-se via confronto. Tem-se, por conseguinte, o “rebelde sem causa”, no qual o confronto é que verdadeiramente importa.
Assim, cumpre ouvir sempre o adolescente, pois ele precisa de um interlocutor atento, verdadeiramente interessado e paciente. É nas suas argumentações e contra-argumentações, nas suas réplicas e “tréplicas”, que o adolescente consegue ir estruturando os seus próprios pontos de vista, às vezes semelhantes aos dos pais, outras vezes opostos. São esses pontos de vista que mais tarde se transformam em valores e princípios próprios.
Forma de colocar limites varia com a idade
Limites são sempre necessários, seja na infância, seja na adolescência e, muitas vezes, mesmo na vida adulta, quando filhos ainda moram em casa dos pais. Porém, a forma de se colocar esses limites precisa de ser diferente em cada idade. Verifica-se que com as crianças, mesmo com as muito pequenas, os pais costumam explicar, justificar os “nãos” exaustiva e desnecessariamente e, quando os filhos se tornam adolescentes, tendem a dar muitos “nãos” sem os justificar. Provavelmente cansaram-se de tanto explicar. Isso é totalmente errado; correcto, é justamente o contrário.
O “não”, a interdição colocada pelos pais, tem sempre uma função protectora. Em qualquer idade, o número de “nãos” deve ser sempre reduzido. Os “nãos” devem ser ditos exactamente nas situações onde os pais acreditam que é super-importante a interdição. Na infância não é preciso que se dêem grandes explicações ou justificações, pois a criança não é capaz da interiorizar uma ética pessoal; quem sabe o que é bom, o que faz bem às crianças, são os seus pais e não a própria criança. Já na adolescência, fase do início do estabelecimento de uma ética própria, o filho necessita ser ouvido, ouvido e ouvido, quantas vezes forem necessárias.
Não significa que os pais devam dizer sempre sim. Normas, princípios e valores são transmitidos aos filhos mediante as atitudes dos pais em relação ao mundo em geral, mas também são ensinadas pela interdição colocada frente a determinadas situações de vida. Nem sempre tudo é possível, o que acarretará frustrações. Porém, lidar com frustrações, refrear tensões, adiar satisfações de desejo, são aprendizagens necessários em todas as etapas da vida.
Especialmente na adolescência, tal ensinamento e tal aprendizagem não são fáceis, dadas as características psicológicas dessa faixa etária. Assim, devem ser tomados cuidados na relação pais-adolescente. Ajuda muito quando os pais têm o próprio desenvolvimento psicológico adequado à idade, quando são pessoas estáveis, tranquilas e têm boa qualidade de vida. Caso contrário, os conflitos vividos na relação com os filhos poderão serem maximizados pelos problemas não resolvidos dos pais com eles mesmos.
Quais os cuidados que devem ser tomados? A relação pais-adolescente é uma relação delicada, que deve ser “cerimoniosa”. Pais gostam muito de perguntar sobre amigos, namorado(a), eventos, etc., muitas vezes por ansiedade e medo do que possa ocorrer com o seu filhinho(a), sendo que o adolescente, em geral, detesta ser interrogado. Num ambiente familiar onde a confiança impera, onde os pais têm a expectativa de participar do mundo dos filhos, mas se contêm, o adolescente faz espontaneamente relatos sobre a sua vida.
Os adolescentes usam de omissões e mentiras com frequência. As omissões são esperadas e até desejadas. Nessa idade, os pais não controlam o mundo interno dos seus filhos, que têm a necessidade e o direito de experimentarem serem sujeitos da suas acções e responsáveis por elas. Assim, não precisam de estar sempre a contar aos pais tudo o que lhes acontece. Entretanto, as mentiras não são toleradas em qualquer idade. Geram perda de confiança e determinam mais necessidade de mais controlo e restrições.
Muitas vezes, o adolescente supõe que vai receber um não frente ao seu pedido e mente sobre o que irá fazer. Outras vezes, supõe que será punido por algo que fez e não deveria e mente para evitar castigos. Quando o que se supõe não pode ser objectivamente verificado tem-se um problema de comunicação. São os problemas de comunicação que trazem as mentiras, a desconfiança, a falta de crédito na relação pais-adolescente.
Assim, cabe aos pais, em primeiro lugar, esforçarem-se para manter uma relação aberta, espontânea, de confiança, de acolhida, de respeito e de alta tolerância com o seu adolescente, sabendo que ele está atravessando uma fase de vida complicada e importantíssima para o seu desenvolvimento futuro. “Há que se ser firme sem perder a doçura”. Ser autoridade é diferente de ser autoritário, como ser respeitado é diferente de ser temido. Do mesmo modo, ser tolerante não significa ser venal, frouxo, inconsistente, bobo.
Como em todas as relações humanas, são esperadas discussões, mas quando elas se transformam em brigas, surgem os gritos, os berros e as ameaças. A falta de controlo leva a dizer aquilo que jamais deveria ser dito, de ambos os lados, abrindo feridas difíceis de serem reparadas. Um stress crónico vivido na relação pais-adolescente é lesivo para todos.
Fonte: ExpressoMT – 06/02/2010

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